16 Fatos Curiosos sobre a Conquista de Constantinopla

Em 1453, a conquista de Constantinopla derrubou um império com mais de mil anos e redesenhou o mapa entre a Europa e a Ásia. Os livros escolares contam o essencial. Os detalhes mais curiosos do cerco, porém, costumam ficar de fora — e estes 16 fatos sobre a conquista de Constantinopla explicam como a Istambul de hoje nasceu daquele maio de 1453.

1. As muralhas que impressionaram até os sitiantes

Trecho restaurado das muralhas de Teodósio em Istambul

As muralhas que rodeavam a antiga Constantinopla somavam 20 quilômetros. O trecho voltado para terra, entre os bairros hoje chamados Yedikule e Topkapı, media 5,5 km e reunia a defesa mais forte da cidade: as Muralhas de Teodósio, com duas linhas de pedra e um fosso. Ao longo do Chifre de Ouro havia outros 7 km, vigiados por menos soldados, e a Muralha do Mármara, voltada para o mar, chegava a 7,5 km. Nada se comparava, na época. Hoje esse trecho terrestre faz parte das Áreas Históricas de Istambul, inscritas pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 1985, que tratam as muralhas de Teodósio II como uma das grandes referências da arquitetura militar. A maior parte fora reparada nos anos 1440, de modo que, quando o cerco começou, as defesas estavam em bom estado. Só não estavam prontas para o que vem no item 2.

2. O canhão gigante que mudou o cerco

Representação do canhão otomano usado no cerco de 1453

Pólvora e canhões já existiam antes de 1453. A novidade otomana foi a escala. O engenheiro húngaro Orban construiu uma peça de 8 metros de comprimento, com cerca de 75 cm de diâmetro e uma bala de aproximadamente 540 kg. Recarregá-lo levava cerca de três horas. Por isso o canhão disparava só cinco ou seis vezes por dia e, uma vez posicionado, não podia mais ser virado. Lento, sim. Inútil, nem de longe: bastava acertar um ponto das muralhas para que os bizantinos levassem uma semana reparando o estrago, trabalhando dia e noite.

Décadas depois do cerco, uma réplica dessa mesma peça foi enviada à Marinha britânica como presente diplomático; hoje ela está em exibição no Museu de Artilharia de Fort Nelson, no Reino Unido.

3. Defensores: poucos soldados para uma cidade enorme

Ilustração dos defensores bizantinos nas muralhas de Constantinopla

Até 1453, Constantinopla era uma das cidades mais difíceis de sitiar no mundo. Tinha mar em três lados. Bastava proteger um único flanco. Em cerca de dois mil anos de história, a cidade havia resistido a uns 20 cercos e caído apenas uma vez, em 1204, tomada por cruzados latinos graças a uma manobra política de Veneza.

Em abril de 1453, porém, apenas 7 mil soldados defendiam as muralhas — dois mil deles estrangeiros —, para uma população de cerca de 50 mil pessoas dentro dos muros. Um detalhe pouco conhecido: entre os mercenários do imperador havia um comandante turco chamado Dorgano e uma tropa de 600 soldados turcos, que defenderam o trecho entre Yedikule e Yenikapı até o fim.

4. Um exército otomano menor do que se contava

Representação do exército otomano durante o cerco de Constantinopla

Quantos soldados Mehmed II levou, afinal? Quase toda fonte da época exagerou. O veneziano Nicolò Barbaro falou em 160 mil homens no exército otomano; o cardeal de Kiev, em 200 mil; o arcebispo de Lesbos, em 300 mil. As análises históricas modernas apontam um número bem menor, entre 50 mil e 80 mil soldados, dos quais cerca de 10 mil eram janízaros de elite — ainda assim, muito superior em número e preparo às forças bizantinas.

Era também um exército diverso. Havia milhares de cristãos nas fileiras otomanas, incluindo 1.500 soldados sérvios enviados como tributo pelo rei da Sérvia.

5. Hagia Sophia, símbolo maior do que uma igreja

Hagia Sophia em Istambul, vista histórica de 1479

Hagia Sophia (também chamada de Santa Sofia) já tinha mais de 1.500 anos quando Constantinopla caiu, e seguia de pé mesmo numa região sacudida por terremotos regularmente. Para os dois lados do cerco, era mais que um edifício. Era o maior símbolo da disputa. No dia em que as muralhas foram rompidas, centenas de moradores se refugiaram ali, e a última missa cristã na igreja foi celebrada em 28 de maio de 1453. O próprio imperador estava presente. No dia seguinte, os ícones foram cobertos com tapetes e a primeira oração muçulmana da cidade conquistada foi realizada no mesmo espaço. Mais de 500 anos depois, o destino do edifício — hoje mesquita, depois de décadas como museu — ainda é assunto sensível na política entre Turquia e Grécia.

6. Galata, o bairro “neutro” que ajudou os dois lados

Vista histórica do bairro de Galata em Istambul

Hoje Galata e o centro histórico de Istambul parecem dois bairros vizinhos separados pela água. Em 1453, eram territórios distintos. Galata era uma colônia genovesa, oficialmente neutra no cerco. Neutra só no papel. Na prática, abastecia os bizantinos por mar e vendia o excedente de suprimentos para a cidade cercada — o que irritava o lado otomano, embora o sultão Mehmed II evitasse atacá-la diretamente, principalmente para não provocar uma frota italiana unida vindo em socorro de Bizâncio.

Foi uma troca. Quando os navios otomanos foram arrastados por terra até o Chifre de Ouro (veja o item 11), a colônia genovesa pouco fez.

7. Fatih Sultan Mehmet: mais do que o conquistador

Retrato histórico de Fatih Sultan Mehmet, conquistador de Constantinopla

Mehmed II, conhecido na Turquia como Fatih Sultan Mehmet (“Mehmed, o Conquistador”), é lembrado sobretudo pela tomada da capital bizantina.

Reduzi-lo a isso, porém, é contar metade da história. Ele falava grego desde a infância, quase como língua nativa, e preservou com cuidado obras da biblioteca bizantina, incluindo textos clássicos considerados ousados para a época. Tratou o funeral do último imperador bizantino com respeito formal e mandou pintar o próprio retrato numa época em que representar o rosto humano era mal visto culturalmente — um gesto bem próximo do espírito renascentista que começava a se espalhar pela Europa. Também foi poeta. Os versos vão além de temas religiosos.

8. Constantino XI, o imperador que escolheu morrer

Representação do imperador Constantino XI Paleólogo

O último imperador bizantino, Constantino XI Paleólogo, teve a chance de fugir e virar rei em outro lugar. Oito dias antes da queda da cidade, Mehmed II enviou um emissário oferecendo um acordo: se a cidade fosse entregue, o imperador e sua família sairiam com seus bens, e ele seria reconhecido como governante do Peloponeso. Constantino recusou a oferta. Segundo registros da época, a resposta foi algo como: “Entregar esta cidade não está em minhas mãos nem nas de qualquer um que vive aqui. Escolhemos morrer aqui, por nossa própria decisão, em vez de entregá-la.”

Quando soube que as muralhas haviam sido rompidas, removeu os símbolos imperiais. Não tentou fugir. Preferiu morrer como um soldado anônimo nas ruas que um dia governou.

9. Giustiniani, o mercenário que quase salvou a cidade

Retrato histórico de Giovanni Giustiniani, comandante genovês em Constantinopla

O marinheiro genovês Giovanni Giustiniani Longo pagou do próprio bolso para levar cerca de 700 soldados, a maioria vindos da ilha de Kos, para ajudar na defesa de Constantinopla. Durante o cerco, virou a peça-chave da resistência. Manteve o moral das tropas e conseguiu algo raro: fazer venezianos, genoveses e gregos — que normalmente desconfiavam uns dos outros — trabalharem juntos reparando as muralhas. Em 29 de maio, dia da queda da cidade, Giustiniani foi gravemente ferido (as fontes discordam se por um tiro de canhão ou uma flecha).

Retiraram-no das muralhas numa maca. O pânico foi imediato. Ferido, deixou a cidade de navio e morreu poucos dias depois na ilha de Chios.

10. A corrente que fechou o Chifre de Ouro

A corrente histórica usada para bloquear o Chifre de Ouro, exposta em museu

O Chifre de Ouro — o braço de mar entre Galata e o centro histórico — era um ponto frágil da defesa. Por ali, uma frota atacaria o lado menos protegido da cidade. Para evitar isso, os bizantinos mandaram ferreiros forjarem uma corrente de ferro batido com centenas de metros de comprimento, presa de um lado perto do atual Sepetçiler Kasrı e do outro perto da região da Mesquita Yeraltı, em Galata. Cortá-la no meio da água era praticamente impossível, e os pontos de fixação eram bem defendidos. Compare com o lado de terra, que tinha duas linhas de pedra e um fosso (item 1): no Chifre de Ouro, a defesa contra navios se apoiava sobretudo numa única peça de ferro. Os navios otomanos não passaram. Era preciso outra rota (item 11). Boa parte da corrente, pouco enferrujada, está hoje em exibição no Museu Naval de Istambul. Poucos objetos de museu resumem tão bem um cerco inteiro.

11. Os navios que “andaram” por terra

Representação dos navios otomanos transportados por terra até o Chifre de Ouro

Driblar a corrente não era simples. Os defensores nem cogitavam isso. Mehmed II tinha dois motivos para tentar: cortar o trânsito de suprimentos entre Galata e a cidade cercada, e forçar os bizantinos a deslocar soldados das muralhas de terra para vigiar um trecho antes considerado seguro. A solução foi colocar os navios sobre trilhos de madeira untados com graxa e arrastá-los por terra. Parece lenda. Não é. A rota saía perto de onde hoje fica o Palácio de Dolmabahçe e descia de volta ao mar pela região de Tarlabaşı e Kasımpaşa. Os navios chegaram ao Chifre de Ouro em 21 de abril, um mês antes da queda da cidade. Os bizantinos tentaram destruí-los com navios incendiários em 28 de abril. Os otomanos já esperavam. A operação bizantina fracassou, com baixas.

12. Ulubatlı Hasan, o soldado famoso por um gesto

Representação de Ulubatlı Hasan hasteando a bandeira nas muralhas de Constantinopla

Poucos soldados de baixa patente ficaram tão marcados na memória turca quanto Ulubatlı Hasan. Quem era ele? Há pouco registro sobre sua vida. O historiador escocês Lord Kinross, no livro “Os Séculos Otomanos”, descreve-o apenas como um soldado de estatura notável. Originário da região de Bursa, Hasan subiu por uma escada até o topo das muralhas em 29 de maio, sob chuva de flechas, pedras e lanças. Fincou uma bandeira otomana no alto. Protegeu-a com um escudo pequeno e uma espada curva até que outros doze soldados conseguissem subir também.

Em seguida, caiu. Depois da batalha, contaram-se 27 feridas de flecha em seu corpo. Alguns relatos estrangeiros dizem que a bandeira foi arrancada e o ponto retomado logo depois, mas o gesto já havia dado ânimo suficiente aos otomanos para que o avanço sobre as muralhas se tornasse impossível de conter.

13. A pilhagem de três dias

Representação histórica da pilhagem após a queda de Constantinopla

Pela lei militar da época — bem diferente dos padrões atuais —, permitir a pilhagem de uma cidade tomada por força era uma prática comum, usada como incentivo às tropas. Como Constantinopla não se rendeu por acordo, Fatih Sultan Mehmet autorizou três dias de pilhagem após a conquista. O resultado é duro de descrever. A escravidão ainda era parte normal da época, e parte da população foi levada a mercados de escravos conforme sua condição social. Fontes estrangeiras relatam violência intensa nos primeiros dias. Quem pôde, se escondeu. Segundo o cronista bizantino Georgios Sphrantzes, ao final do terceiro dia o sultão anunciou que todos os moradores escondidos podiam se apresentar livremente, sem punição, e que quem voltasse para casa recuperaria seus bens, independentemente de origem ou religião.

14. Os que fugiram — e ajudaram a mudar a Europa

Representação de estudiosos bizantinos partindo de Constantinopla em 1453

Quando a maior cidade do mundo cristão caiu, parte da elite intelectual bizantina — poetas, professores e tradutores, entre eles Ioannis Argiropoulos e Constantino Láscaris — preferiu migrar para a Europa Ocidental, especialmente para Florença. Não foram de mãos vazias. Levaram consigo manuscritos de filosofia grega antiga, que ajudaram a acelerar o movimento intelectual que já começava a tomar forma na península italiana.

Boa parte dos historiadores concorda que esses refugiados bizantinos contribuíram para o Renascimento europeu, um efeito indireto da conquista de Constantinopla. O tamanho exato dessa contribuição ainda se discute. Indireto, mas duradouro.

15. Os que ficaram — e seguiram na cidade

Representação da comunidade grega de Istambul após a conquista de Constantinopla

A maior parte dos bizantinos ficou.

Uma das primeiras decisões de Fatih Sultan Mehmet depois da conquista foi nomear Georgios Scholarios como novo patriarca, colocando a Igreja Ortodoxa sob proteção oficial. Essa escolha manteve Istambul religiosamente diversa durante quase toda a história do Império Otomano. No início do século 20, censos ainda mostravam uma população quase dividida entre muçulmanos e não muçulmanos. A comunidade grega de Istambul, concentrada historicamente em Galata e no bairro de Fener, seguiu presente na cidade — com uma redução drástica após eventos de tensão em meados do século 20. Hoje ela é pequena. Estimada em poucos milhares de pessoas, é considerada a última presença bizantina contínua fora da diáspora.

16. Legado: fatos sobre a conquista de Constantinopla

Istambul vista do Bósforo, cenário dos fatos sobre a conquista de Constantinopla

Quase seis séculos se passaram. A rivalidade entre Grécia e Turquia ainda carrega ecos de 1453. No início do século 20, o movimento nacionalista grego conhecido como “Megali Idea” — que sonhava recuperar Constantinopla e Hagia Sophia — alimentou a ocupação grega de İzmir, episódio que deu início ao conflito que os turcos chamam de Guerra da Independência. Até hoje, o ano 1453 aparece em faixas de torcidas de futebol em jogos contra times de origem grega. Na Grécia, o 29 de maio lembra a queda da cidade com tom de luto. A conquista de Constantinopla segue sendo um ponto sensível na relação entre os dois países — e uma peça-chave para entender a Istambul de hoje.

Para quem quer ver esses lugares de perto, vale a pena saber: viajantes brasileiros não precisam de visto para estadias turísticas de até 90 dias na Turquia, segundo o Ministério das Relações Exteriores turco. Português não se fala em Istambul. O inglês funciona como idioma de apoio na maioria dos pontos turísticos. A maior parte dos voos do Brasil para Istambul faz conexão na Europa ou no Golfo Pérsico.

Fontes: History.com, “Constantinople”; Steven Runciman, “The Fall of Constantinople, 1453” (Cambridge University Press); UNESCO World Heritage Centre, “Historic Areas of Istanbul”.

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