33 Mansões Yalı do Bósforo em Istambul e Suas Histórias

No período otomano, cerca de 445 casas de madeira se erguiam coladas à água do Bósforo. Eram as mansões yalı do Bósforo em Istambul, ou simplesmente yalıs (pronuncia-se “ialí”). E não, nem toda casa bonita na orla merece o nome: só é yalı a que toca diretamente a água, diferente dos köşks (pavilhões) construídos mais afastados da costa. Poucos sobreviveram até hoje. Por trás das fachadas elegantes destes 33, as histórias misturam fortuna, tragédia, incêndio e disputa de herança, com donos que vão de famílias otomanas a empresários turcos contemporâneos. A maioria é particular e não pode ser visitada por dentro. Mas você consegue ver boa parte delas de fora, num passeio de barco pelo Bósforo — e vale a pena: é a maneira mais simples de ver as fachadas em sequência, de Eminönü a Sarıyer, de um lado, e de Beykoz a Üsküdar, do outro.

1. Yalı de Emine Valide Paşa

Yalı de Emine Valide Paşa, uma das mansões yalı do Bósforo em Istambul, atual sede do Consulado Geral do Egito

O sultão Abdul-Hamid II deu esse yalı de presente a Emine Valide Paşa, mãe do último cedive do Egito, Abbas Hilmi Paşa. Emine Hanım foi a única mulher a receber o título honorífico de “paşa” (equivalente a um alto posto otomano). Com 76 metros de cais, é uma das mansões com a maior frente de água do Bósforo, e ela mandou reconstruí-la com o arquiteto ítalo-otomano Raimondo D’Aronco. Depois da proclamação da República, Emine Valide Paşa quis doar o yalı, em Bebek, ao novo Estado turco. Não deu certo. Como títulos como “paşa” tinham sido banidos dos documentos oficiais, os funcionários passaram a chamá-la apenas de “Emine Hanım de Bebek”. Ela se ofendeu. E doou a propriedade ao governo egípcio.

Até hoje funciona como Consulado Geral do Egito.

2. Yalı de Yusuf Ziya Paşa, o Egípcio

Yalı de Yusuf Ziya Paşa no Bósforo, conhecido também como Perili Köşk

O comerciante Yusuf Ziya Paşa rivalizava com o cedive egípcio Abbas Hilmi Paşa e, para superá-lo, construiu este yalı de dez andares com uma torre de sete pavimentos — maior que o palácio do próprio cedive. Nunca ficou pronto. As obras pararam quando a Primeira Guerra Mundial começou, em 1914. Yusuf Ziya Paşa migrou para o Egito por dificuldades financeiras e morreu lá; a mansão vazia ganhou o apelido de “Mansão Mal-Assombrada” (Perili Köşk). E a torre? Por determinação do próprio Yusuf Ziya Paşa, suas pedras foram levadas ao Egito para construir seu túmulo. Em 1933, o empresário Basri Erdoğan comprou e restaurou o imóvel, hoje reconstruído conforme o projeto original por decisão do conselho de patrimônio turco. Isolado do mar pela via costeira, ficou décadas abandonado até o grupo Borusan alugá-lo em 2002 para sediar sua matriz.

3. Yalı de Esma Sultan

Yalı de Esma Sultan em Ortaköy, hoje um espaço de eventos

Logo depois da Mesquita de Ortaköy, este yalı foi erguido para uma princesa otomana de nome Esma Sultan — a identidade exata é incerta, já que a história registra três princesas com esse nome. A mais citada, irmã do sultão Mahmud II, viveu entre 1778 e 1848 e é descrita como uma figura de vida amorosa intensa. O yalı passou por fases como escola e depósito de tabaco. Então veio o incêndio de 1975. Sobraram só ruínas. Nos anos 1990, o grupo hoteleiro The Marmara revestiu as quatro paredes remanescentes com estrutura de vidro e aço.

Hoje funciona como espaço para eventos sociais, especialmente casamentos de alto padrão.

4. Yalı de Ahmed Mithad Efendi

Yalı do escritor Ahmed Mithad Efendi em Beykoz

O escritor Ahmed Mithad nasceu em Istambul, em 1844, e trabalhou como aprendiz no Bazar das Especiarias antes de ser exilado para Rodes por causa de um de seus textos. Ao apoiar o sultão Abdul-Hamid II, foi perdoado. Em 1887, demoliu um yalı antigo que comprara em Beykoz e construiu, no lugar, esta casa de madeira de três andares. Ali passou seus últimos 22 anos. Depois de sua morte, a propriedade mudou de mãos várias vezes, foi demolida e reconstruída em 1991. Hoje está dividida em apartamentos.

5. Yalı Huber

Yalı Huber, com sua torre de cúpula em forma de cebola, atual residência presidencial de verão

Nem quem mandou construir, nem o arquiteto original do Yalı Huber são conhecidos — mas os prédios anexos, que formam um pequeno complexo, são atribuídos ao italiano Raimondo D’Aronco. Reconhecível por sua torre com cúpula em forma de cebola, tem um dos maiores jardins do Bósforo, decorado com esculturas. Os irmãos Huber eram alemães. Representavam as fábricas de armas Mauser e Krupp junto ao governo otomano e, com o fim do sultanato, voltaram à Alemanha. O yalı passou pelo ministro das Finanças Necmeddin Molla, por uma princesa egípcia e, durante a Segunda Guerra Mundial, foi doado à Escola Notre Dame de Sion. Em 1973, um grupo de investidores tentou transformá-lo em hotel, mas esbarrou no conselho de patrimônio. Nenhuma alteração foi permitida. Desde 1985, é a residência de verão da Presidência da Turquia.

6. Yalı de Çürüksulu (Muharrem Nuri Birgi)

Yalı de Çürüksulu, também conhecido como yalı de Belkıs Hanım, em Salacak

Comprado em 1890 por Çürüksulu Mehmet Paşa, este yalı em Salacak ganhou uma reforma com árvores trazidas da Geórgia e do Cáucaso para o jardim. Também atende por outro nome. É o Yalı de Belkıs Hanım, por causa da filha do paşa, conhecida tanto pela beleza quanto por uma vida pessoal agitada — seu primeiro marido foi o diplomata e jurista Ethem Menemencioğlu, ligado a Atatürk. Depois de morar em Paris, ela se instalou no Bósforo. E recebia aristocratas ali. Entre eles, a princesa Bibesco e a condessa de Noailles. Com a propriedade em decadência e sem recursos para restaurá-la, vendeu-a em 1968 ao diplomata Muharrem Nuri Birgi, que a restaurou em 1971 com o arquiteto Turgut Cansever — tendo, segundo relatos, vendido três imóveis próprios para custear a obra.

7. Yalıs de Fehime e Hatice Sultan

Yalıs de Fehime e Hatice Sultan em Ortaköy, hoje o Ortaköy Hotel

Também conhecido como Yalı de Gazi Osman Paşa, este imóvel foi um presente do sultão Abdul-Hamid II ao herói da Guerra de Plevna, em 1883. Mais tarde passou a ser associado à princesa Fehime Sultan, filha do sultão Murad V, que o recebeu em 1901, e funcionou como escola até um incêndio, em 2003. E o yalı verde vizinho? Pertence à sua irmã, Hatice Sultan. Segundo o livro “Da Corte ao Exílio”, escrito pela jornalista Kenize Murad, neta de Hatice Sultan, a princesa não pôde se casar até os 31 anos por rivalidade entre seu pai e o tio, o sultão Abdul-Hamid II. Veio então um casamento arranjado, que ela considerava humilhante. Depois, teria se envolvido com o genro do próprio sultão. O prédio já foi orfanato, escola primária e clube esportivo; hoje, restaurado pela parceria entre a Turkish Airlines e a rede austríaca DO&CO, funciona como o boutique hotel Ortaköy Hotel. Para quem visita, a diferença é prática: o Yalı de Esma Sultan (item 3), ali perto, recebe convidados de casamento; este recebe hóspedes.

8. Yılanlı Yalı (o “Yalı das Cobras”)

Yılanlı Yalı entre Bebek e a Fortaleza de Rumeli, com parte restaurada e parte reconstruída em concreto

O nome surgiu de uma mentira: durante um passeio pelo Bósforo, o sultão Mahmud II se encantou com este yalı, do século 18, e perguntou de quem era. Um conselheiro da corte, que o queria para si, inventou que o terreno era infestado de cobras só para desencorajar o sultão — plano que, ironicamente, também o impediu de ficar com a propriedade depois. O apelido “Yalı das Cobras” pegou. Construído no reinado do sultão Selim III, teve como primeiro proprietário o funcionário da chancelaria Reisülküttab Mustafa Efendi. Um incêndio o destruiu em 1964. Em 1989, um industrial de Bursa comprou o terreno e restaurou parte da fachada, enquanto o restante foi reconstruído como prédio de concreto comum. Um final bem sem graça para um yalı com essa história.

9. Yalı dos Xerifes (Şerifler Yalısı)

Yalı dos Xerifes em Emirgan, hoje sede de entidades de preservação do patrimônio

Em Emirgan, este yalı do século 18 é um exemplo refinado de decoração otomana; a ala do harém foi demolida em 1945, numa desapropriação que também cortou sua ligação direta com o mar. Pertenceu ao xerife Hussein bin Ali, de Meca, que, em troca do reconhecimento britânico de seu reino, liderou a Revolta Árabe contra o Império Otomano em 1916, em aliança com o oficial britânico T. E. Lawrence (“Lawrence da Arábia”). O conflito custou caro aos otomanos. Dois de seus filhos se tornaram, depois, emir da Jordânia e rei do Iraque. Quando o califado foi extinto na Turquia, em 1924, o próprio xerife se autoproclamou califa. Viveu exilado no Chipre até 1930.

O prédio hoje abriga a União de Cidades Históricas da Turquia e a fundação de patrimônio ÇEKÜL.

10. Yalı de Recaizade Mahmud Ekrem

Yalı de Recaizade Mahmud Ekrem em Vaniköy, berço do movimento literário Servet-i Fünun

O escritor Recaizade Mahmud Ekrem, que editava a revista literária Servet-i Fünun junto com Tevfik Fikret, nasceu e se casou neste yalı, construído em terreno de família na entrada de Vaniköy. Autor do romance “Araba Sevdası” (um clássico da literatura turca), reunia ali os principais escritores e poetas da época — o imóvel chegou a ser chamado de “Yalı dos Escritores” por ter sediado o nascimento de todo um movimento literário. Um informante denunciou Ekrem ao sultão Abdul-Hamid II por correspondência com o cedive egípcio exilado Abbas Hilmi Paşa. Ekrem teve de vender a casa. Mudou-se para Cihangir. Usado até os anos 1980 como fábrica de açúcar, o imóvel pertence hoje ao casal Haydar e Güner Akın.

11. Yalı de Afif Ahmed Paşa

Yalı de Afif Ahmed Paşa entre İstinye e Yeniköy, com arquitetura neobarroca

A primeira proprietária deste yalı, na estrada entre İstinye e Yeniköy, foi Ferendiz Hanım, filha do grão-vizir Koca Reşid Paşa; a propriedade incluía um bosque de 17.500 m², hoje separado do terreno principal. O nome atual vem do segundo proprietário, Ahmet Afif Paşa, de Beirute, que demoliu a construção original e encomendou o prédio atual, em estilo neobarroco, ao arquiteto Alexandre Vallaury — o mesmo do histórico Pera Palace Hotel. A princesa Refia Sultan, filha do sultão Abdul-Hamid II, se casou ali com o filho de Afif Paşa. Quando o imóvel passou a Misbah Muhayyeş, então proprietário do Pera Palace, a escritora Agatha Christie se hospedou nele durante uma visita a Istambul para escrever “Assassinato no Expresso Oriente”. Depois veio a família Uzan. Por fim, a empresária Suzan Sabancı Dinçer o adquiriu por cerca de US$ 40 milhões. Virou até cenário de novela. Apareceu em “Aşk-ı Memnu” (com Müjde Ar) e em “1001 Noites”.

12. Yalı do Príncipe Burhaneddin

Yalı do Príncipe Burhaneddin, um dos maiores do Bósforo, com cais entre os mais extensos

Com 64 cômodos, este é um dos maiores yalıs do Bósforo; o sultão Abdülaziz o comprou, em 1911, para o sobrinho, o príncipe Burhaneddin Efendi, filho de Abdul-Hamid II. O príncipe teve vida amorosa turbulenta. Ele se distanciou rapidamente da primeira esposa e, depois, perdeu a segunda, Aliye Hanım, para o ministro das Finanças Cavid Bey. Burhaneddin reconstruiu o yalı ao seu gosto em 1912, mas não ficou: deixou Istambul após a Primeira Guerra Mundial, estabeleceu-se em Nova York e morreu lá, em 1949. E o cais? É um dos mais longos do Bósforo, superado apenas pelos yalıs de Emine Valide Paşa, Amcazade e Kıbrıslı. Também é conhecido popularmente como “Yalı dos Egípcios”, por ter sido comprado por um empresário turco-egípcio chamado Ahmed İhsan Bey. Em 1985, chegou a família Erbilgin. Após dez anos de reforma, colocou-o à venda por US$ 150 milhões — na época, uma das cinco casas mais caras do mundo, segundo reportagens internacionais.

Em 2015, foi vendido ao empresário catari Abdulhadi Mana Al-Hajri.

13. Yalı de Said Halim Paşa

Yalı de Said Halim Paşa, também chamado Yalı dos Leões, hoje usado para casamentos

A história deste yalı remonta à década de 1820, quando pertencia ao parlamentar grego-otomano Nikolas Aristarchi. Em 1863, a família Aristarchi reconstruiu o imóvel; o novo proprietário, Abdülhalim Paşa, não satisfeito com o tamanho, encomendou ao arquiteto Petraki Adamanti uma versão maior. O filho dele, Said Halim Paşa — neto de Mehmed Ali Paşa, do Egito —, comprou as partes dos oito irmãos e se tornou único dono. Grão-vizir otomano entre 1913 e 1917, tentou manter a neutralidade do império. Foi em vão. A Turquia otomana entrou na Primeira Guerra Mundial ao lado da Alemanha, e foi neste yalı que ele assinou, a contragosto, o tratado secreto entre os dois países. Depois, foi exilado para Malta. Acabou assassinado em Roma, em 1921. Conhecido como “Yalı dos Leões” por causa de uma estátua na entrada, o imóvel neoclássico foi tomado por um incêndio de origem suspeita em 1995; restaurado, hoje é um espaço procurado para casamentos.

14. Yalı de Fethi Ahmed Paşa (o “Yalı Rosa”)

Yalı Rosa de Fethi Ahmed Paşa em Kuzguncuk, com arquitetura otomana tradicional do século 18

Conhecido também como “Yalı Rosa” (Pembe Yalı), em Kuzguncuk, este exemplo de arquitetura otomana tradicional do século 18 pertenceu a Fethi Ahmed Paşa, casado com Atiye Sultan, irmã do sultão Abdülmecid. O paşa fundou o primeiro museu otomano e, em 1833, se tornou o primeiro embaixador otomano em Viena — onde chegou a inspirar uma composição do compositor Johann Strauss. Mais tarde, como embaixador em Paris, participou da coroação da rainha Vitória, da Inglaterra, em 1839. Decorou tão bem o yalı que o sultão Abdülmecid, impressionado, encarregou-o da decoração do Palácio de Dolmabahçe. Teve admiradores famosos. O arquiteto suíço Le Corbusier, em visitas a Istambul em 1911 e 1948, declarou-se admirador do imóvel; o compositor Franz Liszt também foi hóspede ali. Em 1927, um incêndio destruiu a ala do harém. Só a ala de recepção sobreviveu. Aqui, pelo menos, dá para chegar perto: atrás do yalı, o Parque Fethi Paşa é aberto ao público e tem um restaurante com vista para o Bósforo administrado pela prefeitura.

15. Yalı do Mabeyinci Faik Bey

Yalı do Mabeyinci Faik Bey, com duas torres de cúpula verde, já usado no filme "Topkapi"

Construído em 1890 por Faik Bey, mabeyinci (secretário de câmara) do sultão, este yalı tem duas torres de cúpula verde em cada extremidade. Fiel ao estilo do reinado de Abdülaziz, Faik Bey decorou o interior ao gosto otomano clássico. Modas da época ficaram de fora. Uma reforma nos anos 1950 reconstruiu parte do imóvel, mas a varanda de dois andares preserva o peso visual do estilo original. Depois de Faik Bey, o armador Nazım Kalkavan foi proprietário; seguiram-se Esra Bereket, primeira esposa do nizam de Hyderabad (filho da princesa otomana Dürrüşehvar Sultan), e depois o empresário Hacı Sabancı. O imóvel apareceu no clássico filme “Topkapi” (1964). Melina Mercouri e Peter Ustinov estrelam a trama, sobre um grupo que tenta roubar a adaga do Palácio de Topkapı.

16. Yalı de Sadullah Paşa

Yalı de Sadullah Paşa, um dos mais antigos do Bósforo, com salão de estilo barroco otomano

Um dos yalıs mais antigos do Bósforo, com um salão barroco no andar superior inspirado nas tendas otomanas e um teto ricamente trabalhado. O sultão Abdul-Hamid I deu o imóvel ao chefe dos eunucos do palácio, Mehmed Ağa, no século 18. Em 1872, Sadullah Paşa o comprou. Diplomata e também um dos nomes importantes da literatura do período Tanzimat, foi exilado por apoiar a ascensão do sultão Murad V. Serviu como embaixador em Berlim. Depois foi para Viena. Lá, com medo de que um relacionamento extraconjugal se tornasse público, entrou em crise. Tirou a própria vida em 1891.

A esposa, Necibe Hanım, nunca aceitou a morte dele e manteve a casa sempre arrumada, como se o marido fosse voltar.

Após a morte dela, em 1917, os filhos venderam o yalı a Ahmet Ferit Tek, ministro do início da República. A filha dele, Emel Esin — historiadora da arte formada em Paris, casada depois com o diplomata Seyfullah Esin — fundou a Fundação Tek-Esin; desde a morte dela, em 1987, o imóvel é alugado para sustentar as atividades da fundação.

17. Yalı de Mahmud Nedim Paşa

Yalı de Mahmud Nedim Paşa com torre inspirada na arquitetura de Viena e Praga

O destaque deste yalı é a torre, inspirada em prédios de Viena e Praga que impressionaram Mahmud Nedim Paşa quando serviu como embaixador otomano na capital austríaca. Paşa por duas vezes grão-vizir, sua política próxima da Rússia lhe deu o apelido irônico de “Nedimov”. Em 1875, o Estado otomano já não conseguia pagar os juros da dívida externa. Ele soube antes. Um amigo, o embaixador russo Ignatiev, avisou-o de que as taxas seriam cortadas — ele vendeu os próprios títulos a tempo e evitou perdas, mas quem investira tudo nesses papéis saiu arruinado e foi às ruas. Difícil culpá-los. Uma multidão invadiu o prédio do governo em busca dele. Ele se disfarçou. E fugiu de barco até este yalı. Destituído do cargo, foi exilado, perdoado mais tarde pelo sultão Abdul-Hamid II, e morreu no próprio imóvel enquanto ocupava o Ministério do Interior. Em 1942, os herdeiros doaram o yalı, por um valor simbólico, à Cruz Vermelha turca (Kızılay), que o usou por anos como alojamento de enfermeiras.

Abandonado pela entidade, foi vendido em 1996 e comprado, em 2004, por Yalçın Sabancı por US$ 3 milhões; após restauração, seu valor estimado hoje é de US$ 60 milhões.

18. Yalı do Conde Ostrorog

Yalı do Conde Ostrorog em Kandilli, hoje parte da coleção de Rahmi Koç

O polonês Léon Ostrorog, consultor de direito islâmico para o governo otomano, comprou este yalı em Kandilli em 1904. Era casado com Jeanne, de uma família de banqueiros galatas. Hóspede ilustre: o escritor Pierre Loti. Hoje, o imóvel pertence ao empresário Rahmi Koç, e seu escritório guarda peças da coleção pessoal do conde ao lado de itens da coleção Koç.

19. Yalı de Abud Efendi

Yalı de Abud Efendi, já usado como cenário da novela "Lale Devri"

Entre os yalıs do Conde Ostrorog e de Kıbrıslı, este imóvel teve como primeiro proprietário Altunizade Necip Bey. Projetado pelo arquiteto armênio Garabet Amira Balyan, com decoração interna inspirada no Palácio de Dolmabahçe, foi o primeiro a romper com o layout tradicional em formato “karnıyarık” (literalmente “berinjela aberta”, o arranjo clássico das casas otomanas). Em 1858, o barão francês Vandeuvre se instalou ali; após a morte da filha dentro do imóvel, viveu em luto por quase 40 anos na mesma casa. Em 1884, o presidente da Câmara de Comércio de Istambul, Mehmet Abud Efendi, comprou o yalı. Seus descendentes tiveram vidas conturbadas. O filho Tevfik Bey teve casamentos tumultuados e morreu jovem; a filha Belkıs, figura central da alta sociedade de Istambul nos anos 1920, teve um casamento igualmente infeliz depois de uma festa de casamento memorável realizada ali mesmo. A família morou no imóvel até 1981; hoje pertence a İsmail Özdoyuran, da marca de óleos Salat. Na TV, virou cenário de “Lale Devri”. Uma novela histórica.

20. Yalı de Kıbrıslı

Yalı de Kıbrıslı em Üsküdar, com 64 metros de fachada voltada para o Bósforo

Ao lado da antiga praia de Küçüksu, em Üsküdar, este yalı de 64 metros de fachada foi construído no século 18 para o grão-vizir Mehmed İzzet Paşa. Em 1840, passou a Kıbrıslı Mehmed Emin Paşa, que serviu como grão-vizir sob três sultões diferentes. Hóspedes famosos não faltaram. Por ali passaram a imperatriz Eugénie, da França, o rei Faisal II, do Iraque, e o poeta turco Yahya Kemal Beyatlı. A propriedade acabou dividida. Em 2001, a parte central, com 21 cômodos, foi comprada por Ümran Güngör Üzümcü; o bosque anexo, Sevda Tepesi, já tinha sido vendido separadamente nos anos 1980, e as demais partes pertencem à família Komili, a herdeiros de İzzet Mehmet Paşa e ao empresário Ömer Üründül.

21. Yalı do Oficial da Marinha Sedad Bey

Yalı do oficial da marinha Sedad Bey em Anadolu Hisarı, também chamado Yalı das Magnólias

Em Anadolu Hisarı, este yalı foi construído no início do século 20, em estilo neobarroco, pelo avô do oficial de marinha Sedad Bey, o grão-vizir Mustafa Reşid Paşa, dividido entre ala feminina e ala de recepção. “Yalı das Magnólias” é seu outro nome. Vem das árvores do jardim. Foi vendido em 1992 pelos irmãos Bülent e Edip Işıklıoğlu, descendentes do imã pessoal do sultão Abdul-Hamid II. Hoje, uma parte pertence a Doğu Gözaçan, fundador de um grupo educacional. A parte vizinha é o Yalı de Rıza Bey, onde vive o ex-reitor da Universidade Boğaziçi, Üstün Ergüder.

22. Yalı de Zarif Mustafa Paşa

Yalı de Zarif Mustafa Paşa, com piscina de água salgada interna conhecida como banho do harém

No ponto em que o Mar Negro encontra o Mar de Mármara, este yalı já teve o triplo do tamanho atual, com alas feminina e de recepção além de um abrigo para barcos. O cafeteiro da corte de Mahmud II, Kani Bey, comprou-o nos anos 1800. Em 1848, passou a Zarif Mustafa Paşa. Sua família ficou até 1992. Construído sobre as ruínas de um antigo mosteiro bizantino, ainda guarda no jardim uma fonte sagrada remanescente (ayazma). O genro do paşa, cansado dos banquetes do sogro, comprou parte do imóvel e ergueu um muro de separação; o filho dele doou um fio da barba do profeta Maomé a uma mesquita local, dando ao yalı o apelido de “Yalı de Esat Bey”. Durante a Guerra de Independência turca, a família usou o imóvel para enviar armas à resistência na Anatólia, e chegou a demolir parte da ala feminina por medo de que tropas britânicas a ocupassem. Desde 2000, pertence a Demet Sabancı Çetindoğan. Ali ela já recebeu nomes como Colin Powell, Oprah Winfrey, Madeleine Albright e a grã-duquesa russa Maria Vladimirovna.

Um dos ambientes mais curiosos é o antigo “banho do harém”, uma espécie de piscina fechada onde as mulheres da casa nadavam sem serem vistas; hoje é uma sala de estar com piso de vidro sobre um aquário.

23. Yalı de Amcazade Hüseyin Paşa (Köprülü)

Yalı de Amcazade Hüseyin Paşa, o mais antigo yalı sobrevivente do Bósforo, construído em 1698

O mais antigo yalı ainda existente no Bósforo, construído em 1698 para o grão-vizir Hüseyin Paşa. O apelido “Amcazade” (filho do tio) vem do parentesco: era sobrinho do grão-vizir Köprülü Fazıl Ahmed Paşa, da influente família Köprülü, responsável por boa parte dos monumentos otomanos que sobrevivem hoje na região de Çemberlitaş, em Istambul. Hüseyin Paşa, de orientação sufi mevlevi, foi o quarto de cinco grão-vizires que a família Köprülü deu ao império. Foi neste yalı que se redigiram os rascunhos do Tratado de Karlowitz, de 1699, assinado em nome do sultão Mustafa II — acordo lembrado como o primeiro em que o Império Otomano perdeu território. Era o início do declínio. Em 2014, o empresário Ali Ağaoğlu o comprou, e a restauração está em andamento.

24. Yalı de Nuri Paşa

Yalı de Nuri Paşa, em estilo art nouveau, atualmente propriedade de Ali Koç

Residência de Rahmi Koç por muitos anos, este imóvel teria sido construído por volta de 1895 por Nuri Paşa, oficial do sultão Abdul-Hamid II — a autoria é estimada, não confirmada. O estilo é art nouveau. E há um detalhe incomum entre os yalıs clássicos do Bósforo: a varanda. Quando Rahmi Koç se mudou para o Yalı do Conde Ostrorog, em Kandilli, a casa passou adiante. Ficou com o filho, Ali Koç.

25. Yalı do Médico-Chefe Salih Efendi

Yalı do médico-chefe Salih Efendi, com cais sobre nove pilares voltado para o Bósforo

Não se sabe quem construiu originalmente este yalı.

Salih Efendi, um de seus proprietários, formou-se entre os primeiros alunos da Escola Imperial de Medicina, fundada no reinado de Mahmud II, e chegou a médico-chefe do sultão Abdülmecid. Também era botânico. Conhecido por remédios feitos de plantas e flores, enxertou no jardim uma rosa que ainda é chamada de “Rosa do Médico-Chefe”. Serviu a três sultões como médico pessoal. Depois de comprar o yalı, ampliou-o, com a ala norte reservada aos homens e a sul às mulheres da casa. Aos 63 anos, casou-se com uma de suas alunas, uma jovem circassiana de 16 anos chamada Payidar. Morreu em 1905, aos 89. Os descendentes do casal ainda vivem no imóvel. No início do século 20, os herdeiros demoliram a ala masculina para abrir espaço a um jardim. A fachada, deteriorada, foi restaurada em 1978 pela Fundação Taç; nos anos 1980, construiu-se um cais sobre nove pilares para conter o avanço do mar. A ala feminina remanescente, de cor bordô, tem três seções de alturas diferentes e já serviu de cenário para novelas como “Mil e Uma Noites”; passou por nova restauração em 2010.

26. Yalı da Princesa Rukiye

Yalı da Princesa Rukiye, reconstruído em 1895 ao lado do bosque de Mihrabad

Erguido no final do século 19 ao lado do bosque de Mihrabad, foi, por um tempo, um dos maiores yalıs da região. Necibe Hanım, esposa de Sadullah Paşa (item 16), deu de presente de casamento a ala de recepção à nora, a princesa Rukiye, bisneta do governador egípcio Mehmed Ali Paşa, casada com o filho de Sadullah Paşa, Nusret Bey. Em 1895, Rukiye demoliu a antiga construção térrea e mandou erguer o prédio atual. O casamento não durou. Mas ela se apegou tanto à casa que continuou morando ali sozinha por anos depois do divórcio, antes de vendê-la a outra princesa da mesma família, İffet Hanım. İffet morou pouco tempo no imóvel. Precisou fugir de Istambul às pressas depois de um atentado fracassado contra o cedive egípcio Abbas Hilmi Paşa. Em 1957, o yalı foi comprado por Özdemir Atman, ex-presidente do Jockey Club turco e herdeiro de İffet Hanım.

27. Yalı de Yağlıkçı Hacı Raşid Bey

Yalı de Yağlıkçı Hacı Raşid Bey na baía de Kanlıca

Na baía de Kanlıca, este yalı foi construído por volta de 1850; o anexo ao lado hoje funciona como um yalı independente. “Yağlıkçı” (literalmente “vendedor de lenços”) era o apelido dado a quem fabricava peças de vestuário feminino como lenços, roupas íntimas e vestidos de noiva. Raşid Bey vivia disso. A colina de Mihrabat, atrás do imóvel, é um dos melhores pontos do Bósforo para observar o luar refletido na água. Depois da morte de Hacı Raşid Bey, o yalı passou à esposa, ao filho e à filha, até ser vendido e, nos anos 1980, restaurado pelo então proprietário, Barlas Turan.

28. Yalı de Hacı Ahmed Bey

Yalı de Hacı Ahmed Bey, construído no reinado de Abdul-Hamid II

Construído no reinado de Abdul-Hamid II, este yalı pertenceu à família Ramazanoğlu — o próprio Mustafa Kemal Atatürk participou da festa de circuncisão de um dos filhos da família. Em 1996, mudou de mãos. O comprador foi Sezgin Elmas, do setor alimentício.

29. Yalı de Saffet Paşa

Yalı de Saffet Paşa, com um dos cais mais extensos do Bósforo

Construído em 1907, este yalı tem um dos cais mais extensos do Bósforo e, como muitos outros da lista, foi parcialmente destruído por um incêndio antes de ser restaurado, em 2008. O nome vem do avô do jornalista Sedat Simavi.

Pertenceu antes a Dinç Bilgin. Depois passou a Erol Toksöz, da família por trás da farmacêutica Sanovel e da rede de lojas Sagra.

30. Yalı de Yağcı Şefik Bey

Yalı de Yağcı Şefik Bey, construído em 1905 no lugar do antigo yalı de Cemile Sultan

No terreno onde hoje está este yalı havia antes uma propriedade da princesa Cemile Sultan, irmã do sultão Abdul-Hamid I. O prédio atual é de 1905. Em 1989, passou por uma restauração bem-sucedida. O empresário Şefik Bey, fundador de uma sociedade de apoio à marinha otomana, construiu o prédio maior como ala de recepção e o menor, ao lado, como ala feminina.

31. Yalı de Yedi-Sekiz Hasan Paşa

Yalı de Yedi-Sekiz Hasan Paşa em Kanlıca, atrás do qual mora Mustafa Koç

Em Kanlıca, este yalı do final do século 19, originalmente chamado Yalı de Asaf Paşa, ficou conhecido popularmente como “Yedi-Sekiz Hasan Paşa” (literalmente “Sete-Oito Hasan Paşa”): como o paşa era analfabeto, assinava os documentos com os números 7 e 8 no lugar do nome. O apelido sobrevive. Uma padaria no bairro de Beşiktaş ainda o usa. Hoje o yalı pertence à família Barut, proprietária da farmacêutica Abdi İbrahim; no pavilhão de inverno, atrás da propriedade, vive o empresário Mustafa Koç.

32. Yalı de Hadi Sami Bey

Yalı de Hadi Sami Bey, também chamado Manford Evi, restaurado pelo empresário Hasan Çolakoğlu

Também conhecido como “Casa Manford”, este yalı do século 19 foi comprado, após a ocupação aliada de Istambul, pelo armador grego Licardopulos. O advogado Hadi Bey tornou-se proprietário ao trocá-lo por bens turcos que tinha em Salonica. Pintado no tradicional bordô (“aşı”) dos yalıs, hoje é considerado um dos mais bonitos do Bósforo depois da restauração feita por Hasan Çolakoğlu, fundador do banco TEB. A cor não era detalhe. No período otomano, a cor da fachada indicava a posição social do morador: tons de bordô eram reservados a funcionários do governo, cores claras a muçulmanos, e tons de cinza a não muçulmanos. Do barco, quase ninguém repara nisso. Quem conhece a regra passa a ler a orla de outro jeito.

33. Yalı do Marquês Ahmet Necib Bey

Yalı do Marquês Ahmet Necib Bey, com interior decorado em relevos florais e geométricos

O francês de origem nobre Necib Bey se converteu ao islamismo para poder se casar com Melike Aliye Hanım, e o pavilhão com torre, atrás do yalı, servia como sua residência de inverno. Um incêndio em 1983 danificou seriamente o imóvel, depois restaurado. O interior chama atenção. A decoração é fiel à época, com relevos florais e geométricos. Desde 1977, pertence ao empresário Erdoğan Demirören.

Fontes: Wikipedia — Yalı, Milliyet — İstanbul’un yalıları ve hikayeleri

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